quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Porque o Sapo não lava o pé?


Darwin: A questão do sapo não lavar o pé é adaptativa, uma vez que os sapos que costumavam lavar o pé eram mais suscetíveis aos predadores. Logo, com este mecanismo de defesa contra predadores, os sapos mal-cheirosos tiveram maior sucesso adaptativo deixando mais descendentes.


Olavo de Carvalho: O sapo não lava o pé. Não lava porque não quer. Ele mora lá na lagoa, não lava o pé porque não quer e ainda culpa o sistema, quando a culpa é da PREGUIÇA. Este tipo de atitude é que infesta o Brasil e o Mundo, um tipo de atitude oriundo de uma complexa conspiração moscovita contra a livre-iniciativa e os valores humanos da educação e da higiene!



Marx: A lavagem do pé, enquanto atividade vital do anfíbio, encontra-se alterada no panorama capitalista. O sapo, obviamente um proletário, tendo que vender sua força de trabalho para um sistema de produção baseado na detenção da propriedade privada pelas classes dominantes, gasta em atividade produtiva o tempo que deveria ter para si próprio. Em conseqüência, a miséria domina os campos, e o sapo não tem acesso à própria lagoa, que em tempos imemoriais fazia parte do sistema comum de produção.


Engels: isso mesmo.


Foucault: Em primeiro lugar, creio que deveríamos começar a análise do poder a partir de suas extremidades menos visíveis, a partir dos discursos médicos de saúde, por exemplo. Por que deveria o sapo lavar o pé? Se analisarmos os hábitos higiênicos e sanitários da Europa no século XII, veremos que os sapos possuíam uma menor preocupação em relação à higiene do pé ? bem como de outras áreas do corpo. Somente com a preocupação burguesa em relação às disciplinas domesticação do corpo do indivíduo, sem a qual o sistema capitalista jamais seria possível é que surge a preocupação com a lavagem do pé. Portanto, temos o discurso da lavagem do pé como sinal sintomático da sociedade disciplinar.


Weber: A conduta do sapo só poderá ser compreendida em termos de ação social racional orientada por valores. A crescente racionalização e o desencantamento do mundo provocaram, no pensamento ocidental, uma preocupação excessiva na orientação racional com relação a fins. Eis que, portanto, parece absurdo à maior parte das pessoas o sapo não lavar o pé. Entretanto, é fundamental que seja compreendido que, se o sapo não lava o pé, é porque tal atitude encontra-se perfeitamente coerente com seu sistema valorativo a vida na lagoa.


Nietzsche: Um espírito astucioso e camuflado, um gosto anfíbio pela dissimulação - herança de povos mediterrâneos, certamente - uma incisividade de espírito ainda não encontrada nas mais ermas redondezas de quaisquer lagoas do mundo dito civilizado. Um animal que, livrando-se de qualquer metafísica, e que, aprimorando seu instinto de realidade, com a dolcezza audaciosa já perdida pelo europeu moderno, nega o ato supremo, o ato cuja negação configura a mais nítida e difícil fronteira entre o Sapo e aquele que está por vir, o Além- do-Sapo: a lavagem do pé.
Filmer: Podemos ver que, desde a época de Adão, os sapos têm lavado os pés. Aliás, os seres, em geral, têm lavado os pés à beira da lagoa. Sendo o sapo um descendente do sapo ancestral, é legitimo, obrigatório e salutar que ele lave seus pés todos os dias à beira do lago ou lagoa. Caso contrário, estará incorrendo duplamente em pecado e infração.



Locke: Em primeiro lugar, faz-se mister refutar a tese de Filmer sobre a lavagem bíblica dos pés. Se fosse assim, eu próprio seria obrigado a lavar meus pés na lagoa, o que, sustento, não é o caso. Cada súdito contrata com o Soberano para proteger sua propriedade, e entendo contido nesse ideal o conceito de liberdade. Se o sapo não quer lavar o pé, o Soberano não pode obrigá-lo, tampouco recriminá-lo pelo chulé. E, ainda afirmo: caso o Soberano queira, incorrendo em erro, obrigá-lo, o sapo possuirá legítimo direito de resistência contra esta reconhecida injustiça e opressão.


Kant: O sapo age moralmente, pois, ao deixar de lavar seu pé, nada faz além de que atuar segundo sua lei moral universal apriorística, que prescreve atitudes consoantes com o que o sujeito cognoscente possa querer que se torne uma ação universal.



Nota de Freud: Kant jamais lavou seus pés.



Freud: Um superego exacerbado pode ser a causa da falta de higiene do sapo. Quando analisava o caso de Dora, há vinte anos, pude perceber alguns dos traços deste problema. De fato, em meus numerosos estudos posteriores, pude constatar que a aversão pela limpeza, do mesmo modo que a obsessão por ela, podem constituir-se num desejo de autopunição. A causa disso encontra-se, sem dúvida, na construção do superego a partir das figuras perdidas dos pais, que antes representavam a fonte de todo conteúdo moral do girino.


Jung: O mito do sapo do deserto, presente no imaginário semita, vem a calhar para a compreensão do fenômeno. O inconsciente coletivo do sapo, em outras épocas desenvolvido, guardou em sua composição mais íntima a idéia da seca, da privação, da necessidade. Por isso, mesmo quando colocado frente a uma lagoa, em época de abundância, o sapo não lava o pé.


Hegel: podemos observar na lavagem do pé a manifestação da Dialética. Observando a História, constatamos uma evolução gradativa da ignorância absoluta do sapo ? em relação à higiene ? para uma preocupação maior em relação a esta. Ao longo da evolução do Espírito da História, vemos os sapos se aproximando cada vez mais das lagoas, cada vez mais comprando esponjas e sabões. O que falta agora é, tão somente, lavar o pé, coisa que, quando concluída, representará o fim da História e o ápice do progresso


Comte: O sapo deve lavar o pé, posto que a higiene é imprescindível. A lavagem do pé deve ser submetida a procedimentos científicos universal e atemporalmente válidos. Só assim poder-se-á obter um conhecimento verdadeiro a respeito.


Schopenhauer: O sapo cujo pé vejo lavar é nada mais que uma representação, um fenômeno, oriundo da ilusão fundamental que é o meu princípio de razão. A Vontade, que o velho e grande filósofo de Königsberg chamou de Coisa-em si, e que Platão localizava no mundo das idéias, essa força cega que está por trás de qualquer fenômeno, jamais poderá ser capturada por nós, seres individuados, através do princípio da razão, conforme já demonstrado por mim em uma série de trabalhos, entre os quais o que considero o maior livro de filosofia já escrito no passado, no presente e no futuro: O mundo como vontade e representação.


Aristóteles: O [sapo] lava de acordo com sua natureza! Se imitasse, estaria fazendo arte . Como [a arte] é digna somente do homem, é forçoso reconhecer que o sapo lava segundo sua natureza de sapo, passando da potência ao ato. O sapo que não lava o pé é o ser que não consegue realizar [essa] transição da potência ao ato.


Platão: O sapo que vemos é nada além da corruptela do sapo ideal, que a alma conheceu antes da Queda. O sapo ideal lava seus pés eternos com esponjas imutáveis, num mundo sem movimento. O sapo imperfeito, porém, jamais lava os pés.


Diógenes de Laércio: Foda-se o sapo, eu só quero tomar meu sol.



Parmênides de Eléia: Como poderia o sapo lavar os pés, ó deuses, se o movimento não existe?



Heráclito de Éfeso: Quando o sapo lava o pé, nem ele nem o pé são mais os mesmos, pois ambos se modificam na lavagem, devido à impermanência das coisas.


Epicuro: O sapo deve alcançar o prazer, que é o Bem supremo, mas sem excessos. Que lave ou não o pé, decida-se de acordo com a circunstância. O vital é que mantenha a serenidade de espírito e fuja da dor.


Estóicos: O sapo deve lavar seu pé segundo as estações do ano. No inverno, mantenha-o sujo, que é de acordo com a natureza. No verão, lave-o delicadamente à beira das fontes, mas sem exageros. E que pare de comer tantas moscas, a comida só serve para o sustento do corpo.


Descartes: nada distingo na lavagem do pé senão figura, movimento e extensão. O sapo é nada mais que um autômato, um mecanismo. Deve lavar seus pés para promover a autoconservação, como um relógio precisa de corda.


Bobbio: existem três tipos de teoria sobre o sapo não lavar o pé. O primeiro tipo aceita a não-lavagem do pé como natural, nada existindo a reprovar nesse ato. O segundo tipo acredita que ela seja moral ou axiologicamente errada. A terceira espécie limita-se a descrever o fenômeno, procurando uma certa neutralidade.

Texto retirado da comunidade "Evolucionismo e Criacionismo"

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

A peleja de Rufiao e a metralhadora de gesso contra a carteira que soltava bala!


       O fato que vos conto aconteceu em 2006, estavamos bebendo num dos prédios do Rui Palmeira, após terminar a cachaça uma das pessoas que estavam lá queria porque queria sair para comprar cigarro, devido ao nível de bebida que tal indivíduo havia ingerido eu me inventei de ir acompanhar para o infeliz não se perder ou durmir na rua, na pressa acabei esquecendo a sandalia e indo para o posto descalço. No meio do caminho do posto encontramos uns "malas" olhando com cara feia pra gente, dai eu falei:

- Rufião, vamo adiantar o passo senão a gente se lasca!

Rufião pra dar uma de "caba homi" esperou os malandros chegarem e foi logo falando que tinha vindo do Rio de Janeiro a pouco tempo, e que conhecia todo mundo do mal lá, até o beira-mar e num sei quem mais lá. Um dos malandros que tava muito doidão me puxou pelo braço e falou pra mim:

- Ei "mermão" arruma 2 conto aí pra gente comprar de "coisa" ali.

Eu respondi: - Rapaz, tenho dinheiro não, pra voce ver minha situação tô ate descalço porque nao tenho dinheiro pra comprar um chinelo.

O mala começou a olhar meio errado pra Rufião, Rufião froxo que só um bago de jaca começou a falar com o outro "mala" pra pegar amizade e o que tava conversando comigo não botar pra cima dele. De repente levo outro puxão no braço:

- Ei bicho, que porra é essa no braço dele?

E eu: - Foi que ele levou uma queda da escada chegando bebo em casa um dia desses, daí o braço ta engessado.

E o mala: - Rapaz, tem nada escondido alí não? Na minha terra o povo esconde metralhadora e quando a pessoa menos espera leva bala no cangote, se tu quiser eu te dou minha sandália pra tu não andar descalço, agora leve esse bicho pra longe de mim.

Já perto do posto um dos mala chama o outro e bota a mão na cintura pra puxar alguma coisa, de repente se escuta Rufião gritando:

- Corre Jorge! Esse bicho ta armado!

E sumiu da minha frente feito doce em festa de menino.

Quando escutei isso me veio logo um calafrio, daqueles que voce não sabe se corre ou se fica, resolvi ficar, não sei se por achar melhor ou por não ter medo de carteira.

Sim, era uma carteira que o malandro puxou pra pegar dinheiro pra ir para um bar próximo, após o sumiço de Rufião um deles olha pra mim e fala:

- Oxe, esse bicho tem medo de carteira é? Vo lá ver qual é a dele, ficou fazendo medo ao meu chegado parecendo que tinha uma arma e agora sai na carreira.

Após 5 minutos de discussao calorosa consegui convencer eles a irem embora, já que isso poderia acabar em confusao visto que a essa hora o "caba homi" ja podia ter chamado a polícia.

Sai na procura do bendito, em uma rua próxima a floricultura em frente ao posto do Zé Tenório encontrei uma kombi véia, e um vulto abaixado perto do pneu, daí gritei:

- Pode sair porra, ja foram embora eles, é lucas que tá falando.

Nesse momento se escuta um grito semelhante a um barrão no cio. Era Rufião gritando e correndo pra um bucado de mato:

- Pega ladrão!

Na mesma horinha vi 2 vigias da noite que faziam a segurança no local também correrem com medo, achando que eu era o ladrão. Então decidi voltar pra casa, ja tava tarde, não queria ser confudido com um ladrão e Rufião certamente não ia sair tão cedo do buraco onde estava alojado, quando cheguei no local onde o povo ta bebendo o pessoal perguntou por Rufião e eu falei que ele tinha sumido no mundo. Saimos em grupo para procura-lo e quando estavamos desistindo e voltando para casa, avistamos um carro da polícia, fomos lá avisar ao policial que se encontrassem algum bebo na rua dizendo que fugiu de um assalto podia levar ele para tal endereço, quando olhamos no banco de trás reconhecemos Rufião, todo suado, com as canelas toda ensanguentada de pular quintal e levar carreira de cachorro. Ele desceu do carro e após saber que correu de uma carteira falou: - Ei pow, vamo deixar essa história entre a gente!

É, depois desse dia nunca mais falou que Alagoas não era terra de "caba homi".


terça-feira, 28 de outubro de 2008

Gerô e A Guerra do Facão!


Gerô era negro, artista, cantador popular das ruas de São Luis, era casado, tinha 46 anos e morava na vila Cidade Operária, na capital do Maranhão. Gêrô foi morto na tarde do dia 22 de março de 2007. Após ser torturado por três PMs, chegou sem vida ao hospital. Laudo do IML constatou que ele teve quatro costelas quebradas, os rins dilacerados e vários hematomas na cabeça e braços, inclusive com as marcas das algemas. PMs acusados ainda estão em liberdade.



A Guerra do Facão



Vou pegar meu facão nesse repente
Pra cantar um martelo agalopado
Meu facão ficará mais amolado
Do que a língua da velha no batente
Vou cruzar oceanos, continentes
E lutar como herói em outras terras
Enfrentar os canhões, tanques de guerra
E após derrotar a opressão
Vou guardar na bainha meu facão
E voltar pro meu velho Maranhão!


Meu facão vai honrar sua fama e nome
Bem no centro dos Estados Unidos
Vai cortar meia dúzia de bandidos
Que só faz nossa gente passar fome
Vai vingar as crianças que não comem
E as mães mortas nos braços da parteira
Ensinar a Tio Sam Mulher Rendeira
Em respeito à nação mais que tupi
Fecho as portas do FMI
E trago de volta a bandeira brasileira!


E depois que eu trouxer esta bandeira
Finco ela no lugar mais alto
Não será no Palácio do Planalto
Onde não honram a bandeira brasileira
Finco ela na Serra do Teixeira
Em respeito a Limeira, nosso irmão
Chamo o povo pra uma conclamação
Denuncio os que vendem a pátria amada
Transformo meu facão numa linda espada
E proclamo a indepedência da nação!


Meu facão vai pra mão do operário
E do campônio que trabalha sem parar
E a família não pode sustentar
Com o minguado e mísero salário
"Mala assombro" de latifundiário
Ele manda sumir em um segundo
No Congresso não fica um vagabundo
Dos que vivem das riquezas nacionais
E as esponjas das multinacionais
Vão sugar nosso sangue é noutro mundo


Meu facão foi usado por zumbi
Na luta contar a escravidão
Pra fazer de verdade uma nação
Livre e solta como um colibri
Foi na África do Sul para impedir
Que os negros vivessem na favela
Jogou o Apartheid pela janela
Fez do aço a libertação
Libertando os negros da prisão
E subindo ao pódio com Mandela

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Machado de Assis para crianças...


Metafísica das Rosas

Livro I:

No princípio era o jardineiro. E o Jardineiro criou as Rosas. E tendo criado as Rosas, criou a chácara e o jardim, com todas as coisas que neles vivem para a glória e contemplação das Rosas. Criou a palmeira, a grama. Criou as folhas, os galhos, os troncos e botões, criou a terra e o estrume, criou as árvores grandes para que amparassem o toldo azul que cobre o jardim e a chácara, e ele não caísse e esmagasse as Rosas. Criou a borboletas e os vermes. Criou o sol, as brisas, o orvalho e as chuvas.Grande é o jardineiro! Suas longas pernas são feitas de tronco eterno. Os braços são galhos que nunca morrem; a espádua é como um forte muro por onde a erva trepa. As mão, largas, espalham benefícios as Rosas.Vede agora mesmo. A noite voou, amanha clareia o céu, cruzam-se as borboletas e os passarinhos, há uma chuva de pipilos e trinados no ar. Mas a terra estremece. É o pé do jardineiro que caminha para as rosas. Vede: traz nas mãos o regador que borrifa sobre as Rosas água fresca e pura, e assim também sobre as outras plantas, todas criadas para a glória das Rosas. Ele o formou no dia em que, tendo criada o sol, que dá vida as Rosas, este começou a arder sobre a terra. Ele enche de água todas as manhãs, uma, duas, cinco, dez vezes. Para a noite, pôs ele no ar um grande regador invisível que peneira orvalho; e quando a terra seca e o calor abafa, enche o grande regador das chuvas que alagam a terra de água e vida.

Livro II:

Entretanto, as Rosas estavam tristes, porque a contemplação das coisas era muda e os olhos dos passáros e das borboletas não se preocupavam bastantemente das Rosas. E o Jardineiro, vendo-as tristes, perguntou-lhes:- Que tende vós, que inclinais as pétalas para o chão? Dei-vos a chácara e o jardim; criei o sol e os ventos frescos; derramo sobre vós o orvalho e a chuva; criei todas as plantas para que vos amem e vos contemplem. A minha mão detém no meio do ar os grandes pássaros para que não vos emasguem ou devorem. Sois as princesas da terra. Por que inclanais as pétalas para o chão?Então as rosas murmuravam que estavam tristes porque a contemplação das coisas era muda, e elas queriam quem cantassem seus grandes méritos e as servisse.O Jardineiro sacudiu a cabeça com um gesto terríve; o jardim e a chácara estremeceram até os fundamentos. E assim falou ele, encostado ao bastão que trazia:- Dei-vos tudo e não estais satisfeitos? Criei tudo para vós e pedi mais? Pedi a contemplação de outros olhos; ides tê-la, Vo criar um ente a minha imagem que vos servirá, contemplará e viverá milhares e milhares de sóis para que vos sirva e ame. E, dizendo isto, tomou de um velho tronco de palmeira e de um facão, No alto do tronco abriu duas fendas iguais aos seus olhos divinos, mais abaixo outra igual à boca; recortou as orelhas, alisou o nariz, abriu-lhe os braços, as pernas, as espáduas. E, tendo feito o vulto, soprou-lhe em cima e ficou um homem. E então lançou mão de um tronco de laranjeira, rasgou os olhos e a boca, contornou os braços e as pernas e soprou-lhe também em cima, e ficou uma mulher. E como o homem e a mulher adorassem o jardineiro, ele disse-lhes:- Criei-vos para o único fim de amardes e servides as Rosas, sob pena de morte e abominação, porque eu sou o Jardineiro e elas são as senhoras da terra, donas de tudo o que existe: o sol e a chuva, o dia e a noite, o orvalho e os ventos, os besouros, os colibris, as andorinhas, as borboletas, as cigarras e as filhas das cigarras.


Livro III:

O homem e a mulher tiveram filhos e os filhos outros filhos, e disseram eles entre si:- O Jardineiro criou-nos para amar e servir as Rosas; façamos festas e danças para que as Rosas vivam alegres. Então vieram a chácara e ao jardim, e bailaram e riram, e giraram em volta das Rosas, cortejando-as e sorrindo para elas. Vieram também outros e cantaram em versos os merecimentos das Rosas. E quando queriam falar da beleza de alguma filha das mulheres faziam comparações com as Rosas, porque as Rosas são as maiores belezas do univero, elas são as senhoras de tudo o que vive e respira. Mas como as Rosas parecessem enfaradas da glória que tinham no jardi, disseram os filhos dos homens às filhas da mulheres: - Façamos outras grandes festas que as alegrem. Ouvindo isto, o Jardineiro disse-lhes: - Não; colhei-as primeiro, levai-as para um lugar de delícias que vos indicarei. Vieram então os filhos dos homens e as filhas das mulheres e colheram as Rosas, não só as que estavam abertas mas como algumas ainda não desabrochadas; e depois as puseram no peito, na cabeça ou em grande molhos, tudo conforme ordenara o Jardineiro. E levando-as para fora do jardim, foram com elas a um lugar de delícias, misteriosos e remoto, onde todos os filhos dos homens e toda as filhas das mulheres as adoram prostados no chão. E depois o Jardineiro manda embora o sol, pega das Rosas cortadas pelos homens e pelas mulheres, e uma por uma prega-as no toldo azul que cobre a chácara e o jardim, onde elas ficam cintilantes durante a noite. É assim que não faltam luzes que clareiem a noite quando o sol vai descansar por trás das grandes árvores do ocaso.Elas brilham, elas cheiram, elas dão as cores mais lindas da terra. Sem elas nada haveria, nem o sol, nem o jardim, nem chácara, nem os ventos, nem as chuvas. nem os homens e as mulheres. Nada mais do que o Jardineiro, que as tirou dos seus pensamentos, desabrochadas no ar e postas na terra, criadas para elas e para a glória delas. Grande é o Jardineiro! Pai das Rosas sublimes.


Texto do Machado de Assis, publicado na Gazeta literária em 1º de Dezembro de 1883.
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