segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Titanic no cinema de Santana


Quando o filme Titanic com a Kate  Winslet e o Leonardo Di Caprio  saiu no ano de 1997 o sucesso foi geral! Em todos os lugares se falava da super produção que podia faturar não sei quantos Oscar, nos jornais, nos programas, nas rádios. Santana do Ipanema, no sertão alagoano, não ficou fora dessa regra. 

Só havia uma locadora de filmes na cidade (Planet Vídeo), e mesmo após o mesmo ter saído em fita a disputa era grande, fui na locadora tentar locar algumas vezes mas sempre tinha que fazer reserva pra quando ela voltar, o problema era que sempre tinha várias pessoas na sua frente e havia uma única fita.

Afim de resolver esse problema e de ganhar um boa quantidade dinheiro, alguém teve a ideia de reabrir o espaço no centro da cidade onde funcionava o antigo Cinema , fazer uma faxina, organizar e preparar 2 apresentações do filme num final de semana.

Investiu no marketing: além do carro de som que percorria as ruas anunciando o filme, o preço e o lugar, também havia chamada nas rádios e panfletos colados por toda a cidade, todo mundo sabia que ia rolar o filme, o que não é difícil quando se tem menos de 50 mil habitantes.

Não podia ficar de fora é claro, devia ter 8 ou 9 anos mas como o cinema era pertinho de casa e iria acompanhado com pessoas maiores fui liberado por meus pais. O cinema parecia que tinha estacionado nos anos 70, estava abandonado e toda a estrutura era velha e acabada, o que não o impediu mais tarde de virar Igreja Universal do Reino de Deus.

Devia ter umas 200 cadeiras de madeira e todas estavam lotadas, na verdade havia ainda muitas pessoas que pagaram pra assistir em pé mesmo. O complexo alimentício formado pelo véio do carrinho de pipoca, do carrinho de picolé e o carrinho da véia dos chicletes e pirulitos, faturaram tanto que após o evento decidiram disputar a hegemonia no mercado internacional contra o Mc Donalds.
A tela era uma coisa fantástica, parecia ter sido improvisada num lençol velho mijado e de tamanho menor do que a capacidade dos atuais Data Show, ainda hoje não tenho certeza como foi feita a projeção, se havia um projetor mais arcaico ou se usava fitas de rolo daquelas dos cinemas de verdade. O que sei é que cena mais esperada foi a do Jack desenhando a Rose usando somente um colar. Aí houve aquela zuada no cinema e uma explosão daqueles malditos Laser vermelhos que os bundões ficam colocando na bunda das meninas para aparecerem. Começaram os gritos, alguns eufóricos apontando o dedo pra tela:

- Sai daê donzelo! Nunca viu mulé pelada ai vai desenhar!

E do outro lado:

- E eu que já desenhei a irmã desse galego!

E o outro retrucava:

- Quem desenhou fui eu porra! Fale de Maria não!

E a tensão aumentava, um bêbado berrou:

- Se fosse eu nessa bobônica desse navio já tinha era feito menino com a branquela! Deixe ela vim pra Festa da Juventude que a gente se acertar, todo ano ela fica na casa de Ciço capado que eu tô sabendo!

Felizmente a sessão terminou pacificamente sem nenhuma morte, no máximo algumas lágrimas pela morte do Jack e nada mais. As sessões foram cheias  e animadas, mas apesar disso o cinema nunca funcionou novamente, uma pena.



quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Assim que começa.


Um ano aí tive a péssima ideia de passar o carnaval em Maragogi, cidade turística no litoral norte do estado. Fiquei dormindo na casa da tia de um amigo meu, a qual além da hospedagem deu algumas camisas de um bloco patrocinado pelo prefeito que iria sair na noite seguinte (bloco madeira de lei).

De graça e vindo da dona da casa não tinha como negar, no dia seguinte saímos com as camisas em pleno sábado chuvoso atrás do trio,  eis que o trio anda menos de 100 metros e pifa no meio da rua, a chuva começa a apertar e os integrantes da banda de axé abandonam o trio tirando os instrumentos da chuva:

- Fudeu!

Pensei eu, que estava logo atrás do trio, triste por voltar mais cedo pra casa resolvemos cantar  e batucar na traseira do trio elétrico pra ver se animava a alma, começamos inocentemente com Adoniram Barbosa:

" Não posso ficar nem mais um minuto com você..... sinto muito amor mais não pode ser.... moro em Jaçanã... se eu perder esse trem.... que sai agora as onze horas.... só amanhã de manhã.... e além disso mulher tem outras coisas.... minha mãe não dorme enquanto eu não chegar.... sou filho único.... tenho minha casa pra morar... não posso ficar..."


O pior foi que as pessoas aderiram, o que o álcool não faz. Pra continuar a animação a segunda música era uma marchinha de carnaval e gerou consequências inimagináveis:


" Doutor... eu não me engano... meu coração é Corinthiano... doutor.... eu não me engano... meu coração é corinthiano... eu não sabia mas o que fazer..."


Maragogi fica próximo a divisa de Pernambuco e o carnaval é repleto de pessoas das cidades pernambucanas. Um grupo de torcedores do Sport de Recife não contente com a música decidem rachar e cantam o grito do Sport:

"Cazá! Cazá! Cazá, cazá, cazá!
A turma é mesmo boa!
É mesmo da fuzarca!
Sport! Sport! Sport!"

Começou o problema, chateados com o grito de um time pernambucano em terras caités uma galera do CSA e do CRB começa a entoar e a chegar junto, é o início da bagaceira:


" Ei Sport, vá tomar no cú!!"

E houve resposta:

"Ei CRB, deixe de perder!!!"


"Ei CSA, nunca vai ganhar!!!"


Formou-se dois blocos, um agregando o pessoal de PE e outro com o pessoal de AL. Empurra empurra pra cá, palavrões pra lá, chutes nas poças d'agua pra molhar os torcedores rivais, ameaças e tudo que tinha direito. Me sai na malícia, a peste é quem fica.

E o que começou com Demônios da Garoa terminou com o capeta no coro.




sábado, 5 de novembro de 2011

Magali from hell






História Comum




...Caí na copa do chapéu de um homem que passava. 

Perdoe-me este começo; é um modo de ser épico. Entro em plena ação. Já o leitor sabe que caí, e caí na copa do chapéu de um homem que passava – resta dizer donde caí e por que caí.


Quanto à minha qualidade de alfinete, não é preciso insistir nela. Sou um simples alfinete vilão,modesto, não alfinete de adorno, mas de uso, desses com que as mulheres do povo pregam os lençóis de chita, e as damas de sociedade os fichus ou as flores, ou isto, ou aquilo. Aparentemente vale pouco um alfinete; mas, na realidade, pode exceder ao próprio vestido. Não exemplifico; o papel é pouco, não há senão o espaço de contar a minha aventura.



Tinha-me comprado uma triste mucama. O dono do armarinho vendeu-me, com mais onze irmãos, uma dúzia, por não sei quantos réis; cousa de nada. Que destino! Uma triste mucama. Felicidade – este é o seu nome, - pegou no papel em que estávamos pregados e meteu-o no baú. Não sei quanto tempo ali estive; saí um dia de manhã para pregar o lenço de chita que a mucama trazia ao pescoço. Como o lenço era novo, não fiquei grandemente desconsolado. E depois a mucama era asseada e estimada, vivia nos quartos das moças, era confidente dos seus namoros e arrufos; enfim, não era um destino principesco, mas também não era um destino ignóbil.


Entre o peito da Felicidade e o recanto de uma mesa velha, que ela tinha na alcova, gastei uns cinco ou seis dias. De noite, era despregado e metido numa caixinha de papelão, ao canto da mesa; de manhã, ia da caixinha ao lenço. Monótono, é verdade; mas a vida dos alfinetes não é outra. Na véspera do dia em que se deu minha aventura, ouvi falar de um baile no dia seguinte, em casa de um desembargador que fazia anos. As senhoras preparavam-se com esmero e afinco, cuidavam das rendas, sedas, luvas, flores, brilhantes, leques, sapatos; não se pensava em outra coisa senão no baile do desembargador. Bem quisera eu saber o que era um baile, e ir a ele mas uma tal de ambição podia nascer na cabeça de um alfinete, que não saía do lenço de uma triste mucama? – Certamente que não. O remédio era ficar em casa.


- Felicidade, diziam as moças, à noite, no quarto, dá cá o vestido. Felicidade aperta o vestido. Felicidade, onde estão as outras meias?


- Que meias, nhanhã?


- As que estavam na cadeira...


- Ué! Nhanhã! Estão aqui mesmo.


E Felicidade ia de um lado para outro, solícita, obediente, meiga, sorrindo a todas, abotoando uma, puxando as saias de outra, como pondo a cauda desta, concertando o diadema daquela, tudo com um amor de mãe, tão feliz como se fossem suas filhas. E eu vendo tudo. O que me metia inveja eram os outros alfinetes. Quando os via ir da boca da mucama, que os tirava da toilette, para o corpo das moças, dizia comigo, que era bem bom ser alfinete de damas, e damas bonitas que iam a festas.


- Meninas, são horas!


- Lá vou, mamãe! Disseram todas.


E foram, uma a uma, primeiro a mais velha, depois a mais moça e depois a do meio. Esta por nome Clarinha, ficou arranjando uma rosa no peito, uma linda rosa; pregou-a e sorriu para a mucama.


- Hum! Hum! Resmungou esta. Seu Florêncio hoje fica de queixo caído...


Clarinha olhou para o espelho e repetiu consigo a profecia da mucama. Digo isto, não só porque me pareceu vê-lo no sorriso da moça, como porque ela voltou-se pouco depois para a mucama e respondeu sorrindo:


- Pode ser.


- Pode ser? Vai ficar mesmo.


- Clarinha só se espera por você.


- Pronta, mamãe!


Tinha prendido a rosa, às pressas, e saiu.


Na sala estava a família, dois carros à porta; desceram enfim, e Felicidade com elas, até a porta da rua. Clarinha foi com a mãe no segundo carro; no primeiro foi o pai com as outras duas filhas. Clarinha calçava as luvas, a mãe dizia que era tarde, entraram, mas ao entrar caiu a rosa do peito da moça. Consternação desta; teima da mãe que era tarde,que não valia a pena gastar tempo em pregar a rosa outra vez. Mas Clarinha pedia que se demorasse um instante, um instante só, e diria à mucama que fosse buscar um alfinete.


- Não é preciso sinhá, aqui está um.


Um era eu. Que alegria a de Clarinha! Com que alvoroço me tomou entre os dedinhos e me meteu entre os dentes, enquanto descalçava as luvas. Descalçou-as: pregou comigo a rosa e o carro partiu. Lá me vou no peito de uma linda moça, prendendo uma bela rosa, com destino ao baile de um desembargador. Façam-me o favor de dizer se Bonaparte teve mais rápida ascensão. Não há dois minutos toda a minha prosperidade era o lenço de uma pobre mucama. Agora, o peito de moça bonita, vestida de seda, carro, baile, lacaio que abre a portinhola, cavalheiro que dá o braço à moça, que a leva escada acima; uma escada suada de tapetes, lavada de luzes, aromada de flores. Ah! Enfim! Eis-me no meu lugar.


Estamos na terceira valsa. O par de Clarinha é o Dr. Florêncio, um rapaz bonito, bigode negro, que a aperta muito e anda à roda como um louco. Acabada a valsa, fomos passear os três, ele murmurando-lhe coisas meigas, ela arfando de cansaço e comoção, e eu fixo, teso, orgulhoso. Seguimos para a janela. O Dr. Florêncio declarou que era tempo de autorizá-lo a pedi-la.


- Não se vexe; não é preciso que me diga nada; basta que me aperte a mão. Clarinha apertou-lhe a mão; ele levou-a à boca e beijou-a; ela olhou assustada para dentro.


- Ninguém vê, continuou o Dr. Florêncio; amanhã mesmo escreverei a seu pai. Conversaram ainda uns dez minutos, suspirando coisas deliciosas, com as mãos presas.


O coração dela batia! Eu, que lhe ficava em cima, é que sentia as pancadas do pobre coração. Pudera! Noiva entre duas valsas. Afinal, como era mister voltar à sala, ele pediu-lhe um penhor, a rosa que trazia ao peito.


-Tome...


E despregando a rosa, deu-a ao namorado, atirando-me com a maior indiferença, à rua...


Caí na copa do chapéu de um homem que passava e...



Machado de Assis

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Cebolinha Agitprop!






Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...